A magia dos partos na água
Artigo da Revista Mãe Ideal de Novembro de 2008
São emocionantes, diferentes e especiais. Os partos dentro de água proporcionam uma experiência única a quem os vivencia. Saiba tudo sobre esta modalidade e decida atempadamente se quer ou não experimentar.
Já há uma história de mais de 30 anos de experiência em nascimentos dentro de água um pouco por todo o Mundo, com resultados bastante satisfatórios e que vêm deitar por terra algumas críticas de alguns profissionais de saúde sobre o nascimento dentro de água.
“A grande diferença entre o parto natural humanizado em terra e um parto natural humanizado dentro de água é mesmo apenas a inclusão do elemento água, como um recurso natural, não invasivo e seguro de relaxamento e de controlo da dor durante o trabalho de parto, assim como um meio suave e delicado para receber o bebé no momento do seu nascimento”, explica Isabel Ferreira, Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstétrica da Gimnográvida.
Todas as mulheres com gravidez de termo (com mais de 37 semanas de gravidez), de baixo risco, ou seja, sem contra-indicações absolutas para um parto por via vaginal, que pretendem ter um parto natural sem recurso a medicamentos para redução da dor, têm os requisitos mínimos para se candidatarem a um parto dentro de água.
“O parto na água destina-se a todas as mulheres que reconhecem em si o poder relaxante da água e que pretendem ter um parto natural com total liberdade de movimentos”, explica Isabel Ferreira.
Preparação Aquática Pré Parto
É o nome dado às aulas que preparam, dentro de água, os “casais grávidos” (como a própria Isabel Ferreira os intitula) para o momento do nascimento do bebé. “Durante a Preparação Aquática para o Parto, o casal efectua vários exercícios dentro de uma piscina aquecida, experimentando, em perfeita simbiose, sensações semelhantes às do feto durante a gravidez”, diz-nos Isabel Ferreira. Há um envolvimento muito íntimo entre o casal durante estes exercícios, “o que promove a sua vinculação com o seu filho. A intimidade e o relaxamento transmitidos por este tipo de exercícios induz a libertação de endorfinas conhecidas por promover o seu bem-estar e pelo seu efeito analgésico”, acrescenta a Enfermeira da Gimnográvida.
Os pais conseguem criar uma ligação muito forte com o seu filho através de exercícios de flutuação, de sons emitidos debaixo de água e da respiração aquática. “As sessões pré-aquáticas treinam ainda os casais a realizar técnicas de respiração, auto controlo e auto-confiança indispensáveis para o momento do parto”, refere Isabel Ferreira.
Exercícios a realizar:
- Exercícios para fortalecimento muscular e relaxamento durante toda a gravidez;
- Exercícios respiratórios para promoção do bem-estar materno e fetal na gravidez e parto;
- Exercícios para o casal de simbiose e relaxamento na água;
- Exercícios para auxílio na visualização do feto ao longo canal de parto;
- Exercícios para interiorização da experiência vivida pelo feto no interior do saco amniótico – experimentação da sensação de leveza, dos sons…
A realidade em Portugal
Existem
países como a Bélgica e a Alemanha que oferecem a opção de ter o bebé dentro da
água em quase todas as Instituições de saúde, públicas e privadas. No nosso
País, o interesse por esta modalidade começa agora a emergir. “Tenho apenas
conhecimento de uma instituição privada, no Porto, que possui uma sala
especificamente equipada para este efeito – a Ordem da Lapa e outro local em Lisboa, na Clínica Santo António da Reboleira. No entanto, para
usufruir destes serviços, as mulheres terão de o solicitar junto de equipas
obstétricas particulares”, explica Isabel Ferreira (veja as instalações na reportagem que se segue).
Qualquer instituição de saúde que esteja interessada poderá contudo experimentar a oferta destes serviços com a utilização de banheiras descartáveis. “Essa foi a opção escolhida pelo casal Júnia e Pedro para o nascimento do seu filho, o Simão Pedro, o primeiro bebé a ser conhecido pelo seu nascimento dentro de água numa instituição de saúde portuguesa. Tenho também conhecimento de algumas dezenas de casais portugueses que optaram por ter o seu parto em casa, em banheiras descartáveis, com acompanhamento de profissionais de saúde”, adianta a Enfermeira da Gimnográvida.
Onde se deve dirigir?
“Existem actualmente vários locais onde os casais podem usufruir de sessões de Preparação para o Parto e a Parentalidade, tanto a nível privado como a nível público, nos centros de saúde e nos hospitais, pelo que neste momento, este serviço está disponível a toda a população”, garante Isabel Ferreira. No entanto, a Preparação Aquática para o Parto está ainda restrita a poucos serviços de saúde, em parte por falta de profissionais de saúde com habilitação específica nessa área.
A Mãe Ideal ajuda-a a conhecer um dos locais que proporciona sessões aquáticas de preparação para o parto. Chama-se Gimnográvida, localiza-se no Porto e tem à sua disposição, inúmeros serviços destinados às mães grávidas.
Podem inscrever-se para todos esses serviços, bastando para isso contactar o Centro Gimnográvida, através do contacto 916 488 787 ou pelo e-mail info@gimnogravida.pt
Neste local, as sessões de Preparação Aquática para o Parto têm a duração de 45 minutos e devem ser realizadas, pelo menos, uma vez por semana até ao nascimento do bebé ou em sessões isoladas, integradas no Curso Global de Preparação para o Parto e a Parentalidade.
“A piscina localiza-se nas instalações do Boavista do Sport Club do Porto, é aquecida e a qualidade de água é controlada” garante Isabel Ferreira. Para mais informações, consulte www.gimnogravida.pt
Acabar com os mitos
“Existem actualmente estudos científicos que confirmam a segurança e a eficácia do nascimento dentro de água”. Isabel Ferreira refere que uma das perguntas mais frequentes é se há algum perigo de afogamento para o bebé. A resposta tranquiliza as leitoras mais ansiosas: “O bebé tem o reflexo de mergulho, ou seja, enquanto a sua face não entra em contacto com o ar, ele não inicia a respiração e a sua laringe encontra-se fechada, impedindo a entrada de água nos seus pulmões. O oxigénio, enquanto o bebé está debaixo de água, é fornecido pelo sangue materno, através do cordão umbilical”. Se acontecerem situações emergentes dentro de água, pode ser necessário que a mulher saia para fora, embora não seja muito frequente.
A água não retira toda a sensação dolorosa do parto, mas apenas a reduz um pouco. “A mulher sente as contracções de forma intensa, mas é incentivada a não lutar contra elas e sim aceitá-las como algo natural e fisiológico, num processo intenso que lhe irá dar a energia para conseguir ter a força necessária para empurrar o seu bebé para o mundo exterior a si”, fundamenta Isabel Ferreira.
Como decorre o parto dentro de água
Para que se garanta a segurança dentro de água, deverão ser garantidas as condições de água a utilizar para encher a piscina, que deverá ser potável e com a temperatura mantida entre os 35ºC e os 37ºC. “A banheira deverá encher-se com água até ao peito da mãe, quando em posição de sentada. Para potenciar os efeitos da água, a mulher deverá ser incentivada a entrar na água assim que estiver com uma dilatação uterina de 4/5 cm. Antes disso, poderá beneficiar dos efeitos da água utilizando chuveiro com água fria ou quente”, explica a Enfermeira da Gimnográvida.
O parto deverá ser acompanhado por enfermeiras ou médicos especialistas em saúde materna e obstétrica, com o mesmo profissionalismo e conhecimento com que acompanham o parto natural humanizado em terra. “Sempre que se verificar a necessidade de intervenção específica que impeça o parto dentro de água (como por exemplo a necessidade emergente de aplicação de uma ventosa ou de uma cesariana), deverá ser solicitado à mulher que saia da água, informando-a dos motivos desta orientação clínica”, diz-nos Isabel Ferreira.
Ao entrar na água, as futuras mães exprimem um enorme sentimento de relaxamento físico e emocional, um maior sentimento de leveza e uma maior facilidade de movimentação, associando-se “uma significativa redução da dor e do desconforto durante todo o processo de nascimento do seu filho. O companheiro também pode entrar e ajudar em todo o processo”, adianta a enfermeira entrevistada pela Mãe Ideal.
O momento em que o bebé vem ao mundo é de uma magia intensa. “A cabeça e o corpo saem de dentro do corpo da mãe de uma forma suave e dentro de água, o recém-nascido flutua e abre e fecha os seus pequeninos olhos, explorando pela primeira vez o novo mundo. Impulsiona-se de seguida para a tona da água, em direcção à mãe, mostrando que nasce já com a capacidade de nadar na direcção de quem reconhece como sua cuidadora e protectora. A mãe acolhe-a suavemente nos seus braços, emocionada”, conclui Isabel Ferreira.
Benefícios dos partos dentro de água
- Aumento do relaxamento e uma significativa diminuição da dor materna. Há uma maior progressão do trabalho de parto;
- Aumento da oxigenação do feto durante o trabalho de parto: como a mãe está mais relaxada, a sua respiração é usualmente mais calma, profunda e eficaz, pelo que os gastos em oxigénio são menores e chegam em maior quantidade ao feto, promovendo o seu bem-estar;
- Aumento da elasticidade materna, o que diminui o risco de lacerações vaginais e perineais durante o parto;
- A liberdade de movimentos e posicionamento da mãe conduz usualmente a uma descida mais rápida e menos traumática do feto pelo canal de parto, pelo que usualmente a imersão em água durante o trabalho de parto está associada a uma menor necessidade de intervenções obstétricas, tais como a utilização de fórceps, ventosas ou o recurso à cesariana.
Revista Mãe Ideal de Novembro de 2008
Estudos científicos sobre a segurança de um parto dentro de água:
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